A minha avó paterna faz hoje 81 anos. Foi a única que conheci.
E a que, perante a oportunidade de convívio, me recusou. Vez após vez.
Recordo, no entanto, com a nostalgia e encantamento que só as avós sabem ter, as escassas recordações na grande casa branca de Carcavelos. O cheiro a cera do chão - aquele que ainda reconheço como perfeito. A jardineira de galinha. A cevada, em chávenas pequeninas e antigas, como se eu já fosse crescida para beber café. A missa na televisão a preto e branco. Os brincos em forma de rosa que me deu, herança da sua mãe, e que me massacraram as orelhas como dentadas de cães. Os três envelopes com dinheiro e nenhuma palavra. A enorme cabeça de Cristo, na cómoda da entrada, com ar choroso e bocarra aberta, que eu fingia estar no dentista. A caixa de música em forma de garrafa. Os minúsculos chinelos de velha, em pele preta trabalhada. O barulho dos seus dentes de mentirinha, a mergulhar no copo efervescente. A tinta do cabelo que escondia num buraco da parede da casa de banho, para se gabarolar às vizinhas a ausência de cãs. Os olhos azuis, como dois botões de um casaco para o frio. E o riso seco, e amargurado. As histórias de infância. Apesar de, nessa altura, me ter custado a acreditar que a minha avó pudesse ter sido criança como eu. O retrato do avô adúltero, pendurado na sala, como o de um mártir ou herói, tragicamente morto aos 42 anos, num acidente de carro. O pão-de-ló seco. As amêndoas com sabor a naftalina. A mesa da cozinha, debaixo da qual convenci o vizinho Nuno a dar-me o meu primeiro beijinho na boca, aos 4 anitos e tal. O quarto do meu pai, cheio de garrafas vazias e fotografias nossas rasgadas. A assustadora máquina de lavar roupa, cinzentona. As escadas para a casa do vizinho, com vasos cheios de salsa e beatas de cigarros. O dois cavalos verde, estacionado no quintal, que o meu irmão tanto adorava "conduzir". O abraço que lhe dei, já em adulta, na última vez que nos vimos. E a rigidez em que o seu corpo franzino permaneceu, perante o nostálgico afecto. Precisamente no dia em que, graças a Deus, perdi os brincos em forma de rosa.
















