terça-feira, 16 de agosto de 2011

Inesgotável cultura:

Ela: Herbelto Helder é um monumento literário.

Colega de 20 anos: Alberto quê?
Colega de 30 anos: Eu não sou muito de ir a monumentos...
Colega de 40 anos: O pai daquele do Bloco de Esquerda escreve?
Colega de 50 anos: Eu também aprecio muito os poetas falecidos.

Souvenir feminista:

As mulheres podem ser divididas em duas categorias: as mulheres-pérola e as mulheres-ostra.
Enquanto que as primeiras são inteligentes e trabalhadoras, honestas e de um humor ácido e raro, as segundas são faladoras e mimadas, e de um cuidado extremo com a sua aparência.
As primeiras são simples e elegantes. Femininas. Humanas. Fazem beicinho e mordem os lábios, ora de luxúria, ora de tristeza, ora de timidez. Cortam o cabelo em casa, enquanto preparam o jantar, e depois de passar a ferro. São pestanudas e apreciam poesia.
As segundas são sofisticadas. Bonecas, na sua camuflagem de perfeição. Fazem trombas de manhã ou à noite, ora quando contrariadas, ora quando a roupa lhes deixa de servir, ora quando reencontram antigas colegas de escola, mais-casadas-ou-grávidas-ou-profissionais-ou-tudo-junto que elas. Cortam o cabelo no cabeleireiro, enquanto encomendam o jantar, e depois de irem buscar a roupa já passada a ferro. Têm lábios carnudos e apreciam revistas cor-de-rosa.
As mulheres-pérola raramente se apaixonam, e quando amam, dão a vida.
São independentes, teimosas e meigas.
As mulheres-ostra raramente amam, e quando se apaixonam, reclamam da vida.
São dependentes, teimosas e sedutoras.
As mulheres-pérola são viciantes e um constante desafio.
As mulheres-ostra são fáceis de agradar, e transparentes como copos de água.
As mulheres-pérola permanecem, por mais tempo, livres de relacionamentos amorosos.
As mulheres-ostra permanecem, na maioria dos relacionamentos amorosos, como namoradas e esposas para a vida.



E isto porquê?
Simples:
porque ninguém quer dar pérolas a porcos...

Inesgotável lista:

Decididamente, estou na fase do último item.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Souvenir familiar:


A minha avó paterna faz hoje 81 anos. Foi a única que conheci.
E a que, perante a oportunidade de convívio, me recusou. Vez após vez.
Recordo, no entanto, com a nostalgia e encantamento que só as avós sabem ter, as escassas recordações na grande casa branca de Carcavelos. O cheiro a cera do chão - aquele que ainda reconheço como perfeito. A jardineira de galinha. A cevada, em chávenas pequeninas e antigas, como se eu já fosse crescida para beber café. A missa na televisão a preto e branco. Os brincos em forma de rosa que me deu, herança da sua mãe, e que me massacraram as orelhas como dentadas de cães. Os três envelopes com dinheiro e nenhuma palavra. A enorme cabeça de Cristo, na cómoda da entrada, com ar choroso e bocarra aberta, que eu fingia estar no dentista. A caixa de música em forma de garrafa. Os minúsculos chinelos de velha, em pele preta trabalhada. O barulho dos seus dentes de mentirinha, a mergulhar no copo efervescente. A tinta do cabelo que escondia num buraco da parede da casa de banho, para se gabarolar às vizinhas a ausência de cãs. Os olhos azuis, como dois botões de um casaco para o frio. E o riso seco, e amargurado. As histórias de infância. Apesar de, nessa altura, me ter custado a acreditar que a minha avó pudesse ter sido criança como eu. O retrato do avô adúltero, pendurado na sala, como o de um mártir ou herói, tragicamente morto aos 42 anos, num acidente de carro. O pão-de-ló seco. As amêndoas com sabor a naftalina. A mesa da cozinha, debaixo da qual convenci o vizinho Nuno a dar-me o meu primeiro beijinho na boca, aos 4 anitos e tal. O quarto do meu pai, cheio de garrafas vazias e fotografias nossas rasgadas. A assustadora máquina de lavar roupa, cinzentona. As escadas para a casa do vizinho, com vasos cheios de salsa e beatas de cigarros. O dois cavalos verde, estacionado no quintal, que o meu irmão tanto adorava "conduzir". O abraço que lhe dei, já em adulta, na última vez que nos vimos. E a rigidez em que o seu corpo franzino permaneceu, perante o nostálgico afecto. Precisamente no dia em que, graças a Deus, perdi os brincos em forma de rosa.

Inesgotável feriado religioso:






domingo, 14 de agosto de 2011

Souvenir tortuoso:

A gerência agradece!


Do fundinho do seu quase-coração.

...!





Em poucos meses foram mais longe do que a maioria alguma vez vai. Ultrapassaram limites impossíveis para Ela, e também para Ele, que tantas vezes se sentiu invisível e só, reconstruindo-se à custa do seu carácter forte e optimista. Pisaram o acelerador a fundo desde aquele breve e acanhado trocar de palavras. E o inocente encontro revelou-se o primeiro de vários em que nunca reduziram a velocidade. Tudo se tornou viciante. Os olhares. Os risos. O entusiasmo. O cheiro frutado dela.

Depois de algum tempo, Ele começou a esquecer-se da sensação de adrenalina que O Amor provoca. Tornou-se distante e evasivo. O relógio agigantou-se no seu pulso, e nos seus olhos, que se demoraram a contemplar Outra pessoa, antiga, ao fundo da rua. Como se o milagre que acontecera fora apenas um sonho passageiro. Uma brincadeira de recreio. Uma fantasia. Um hobbie.
Atravessou, então, a estrada, onde já o esperavam. Não voltou.

Ela percebeu, então, a fatalidade de ter de dar um passo na direcção oposta. Esquecer tornava-se, agora, incontornável. O quotidiano passou a sufocá-la na dúvida constante: ou voltava para a escuridão solitária da sua caverna ou decidia-se a enfrentar o convidativo abismo de se deixar reduzir a uma sombra faminta. Se optasse por recuar, não encontraria o que deixara antes. O seu espaço seguro jamais voltaria a ser o mesmo. Ele tinha-o destruído. (É que depois de se cheirar e saborear o ar livre, as sombras rotineiras deixam de parecer acolhedoras.)

Porém... se aquilo que sabia atrás de si a entristecia, numa incomplitude nunca antes sentida, o cenário diante dos seus olhos deixava-a paralisada de medo. Teria de encontrar em si a coragem e a loucura para desafiar o vazio, acreditar e esperar, novamente, que alguma força mágica a viesse resgatar. O Amor, talvez.


Mas O Amor era Ele - e Ele, afinal, não lhe tinha Amor...

Inesgotável cãopanheiro:

(Tintol, Março de 2011)


Não gostas de comida humana.

Adoras comer flores.

Tens medo de sacos de plástico.

E de motas.

És atrevido, obediente, bruto, infantil, preguiçoso e simpático.

Estás apaixonado pela gata Maggie.

E pela gata norueguesa da rua da escola.

Surgiste do nada, há quase seis meses, quando regressava de mais um dia de trabalho.

Correste para mim, como se me reconhecesses.

E por cá ficaste, sem nunca choramingar ou farejar até à casa de onde vieste.

Refilei entre dentes, suspiros e quase soluços, não querer mais animais por uns tempos, desgostosa de tantas perdas recentes.

Não ligaste nenhuma, absolutamente convicto que me ias conquistar.

Seguias-me para todo o lado, com a língua sorridente, num ar gozão.

Ganhaste.

Tornaste-te na energia que me faltava.

Dou agora por mim a pensar que pessoas não demonstram tamanha afeição e amizade.

Nem mesmo as pessoas a quem me dou, com tanto empenho, e que me conhecem, mais do que tu, me observam com a magia que demonstras.

É um Inferno passear-te à rua.

Mas, confesso, é também um Paraíso...

Souvenir sociológico:



A vida corre melhor para quem não tenta ser boa pessoa.

sábado, 13 de agosto de 2011

Inesgotável filme:



"O Amor é uma questão de oportunidade...
De nada vale encontrar a pessoa certa antes ou depois da altura certa."

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Souvenires irritantes:

...! Mulheres em histeria como cadelas tontas com cio.

Ai os saldos, ai as férias, ai as dietas, ai a ida ao cabeleireiro e à manicure.


...! Ar condicionado que emana frio matinal do Alasca.


...! Glutões nas ruas.

Olhos em formato farol-ou-câmara-de-videovigilância a micar decotes e pares de pernas ao léu, como se não houvesse amanhã.


...! Som de cortar de unhas.

Com a tesoura de papel do Departamento, enquanto colega teoriza sobre a falta de produtividade laboral... dos outros.

sábado, 6 de agosto de 2011

Inesgotável conceito:



Insatisfação:

Expectativa utópica, acompanhada da sensação de clausura mental, tristeza solitária e perplexidade perante a realidade, na qual não estás.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Souvenir planeado:



O tempo tornou-me paciente:

Ensinou-me a partir.

E a ver-te regressar.

Deu-me a convicção de que aquilo que sentimos não justifica [não pode justificar] a distância.

Hoje, sei que nunca mais ninguém voltará a arrancar-me da pele o prazer que os teus dedos me causam.

Só porque tu és todos os meus momentos perfeitos.

Tu és o meu plano de felicidade.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Inesgotável rotina:

Na mesma estação de Metro em que saio, todas as manhãs, cruza-se comigo um anão à volta dos 30 anos, brinco na orelha direita, fatinho escuro da Zara kids, after shave jovial, olhos pestanudos e azuis e ar satisfeito para com a vida, a beber um iogurte liquido de ananás.


Daqueles que sorriem para as estranhas que acham bonitas.

E que batem o pé, em jeito de tocar bateria, ao som da música ritmada do mp3.

E que andam com um livro na mão,

porque gostam de ler,

porque os livros são objectos lindos,

porque assim aparenta-se ter cultura,

porque fica bem.


Como se fosse fácil andar num mundo de gigantes egoístas, frutos de uma sociedade que liga mais ao exterior do que ao interior humano.

Como se não doessem os ossos, e os órgãos e os sentidos, por parecer tudo tão fora de alcance.

Como se à vida não lhe tivesse sido retirado tempo, devido à doença.

Como se os outros não olhassem com pena, ou espanto, ou indiferença.


Raio do homem que parece sempre tão incrivelmente confortável no seu corpo de bracinhos curtos e feições desproporcionais.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

...!

Perhaps it's to dangerous to place your happiness in someone else’s hands.


What would you do in case their gone?…

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Souvenir literário:

Diz que mandei um e-mail ao escritor Valter Hugo Mãe. Porque me apeteceu.


E diz que ele me respondeu. Em 45 minutos.


Oh que pena viver tão longe.


Oh que pena estar sempre no estrangeiro.


Oh que pena receber, a cada 12 segundos, um pedido de casamento de uma brasileira...

sábado, 23 de julho de 2011

Inesgotável silêncio:



Souvenir filosófico:



Ao ritmo com que as pessoas me têm magoado, das duas uma:

ou conquistei, por mérito, o estatuto vitalício de imunidade ao drama,

ou vou para o Guiness.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

...!



Aos que se choramingam que têm uma vida difícil por não serem levados a sério, saibam que hoje conheci um senhor cujos apelidos eram TREMOÇO DO FRASCO.




I rest my case.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Souvenir cãofuso:

Tenho a vida em forma de corda e cheia de nós...